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Pico Paraná

17/01/2007

Pico Paraná, o ponto mais alto do sul do Brasil.

 

A melhor trilha que eu já fiz. Sem exageros.

 

As melhores trilhas são aquelas em que, em algum momento, você se arrepende de ter começado, mas no fim uma vista panorâmica dos grandes espaços selvagens, a sensação de vencer um desafio tão maior que você e a lembrança de que somos meros animais naquele ambiente, sujeitos às mesmas leis que a aranha ou o lagarto que cruzaram o seu caminho faz com que a pessoa que chega em casa seja um pouco diferente do que a que saiu para a trilha. Com certeza você volta mais forte, mais confiante e percebe como a maioria das preocupações cotidianas das pessoas são pequenas e fúteis.

 

A trilha começa na Fazenda Pico Paraná. O dono da Fazenda é o Dílson, muito gente fina e de confiança. Ele cobra R$ 3,00 para você deixar o seu carro dentro da propriedade dele. Além disso você pode pernoitar no alojamento dele e tomar banho.

 

Mais importante ainda, tem o trabalho de preservação e manutenção da trilha, e a segurança dos montanhistas. Então deixe de ser chato e pague os R$ 3,00 sem reclamar.

 

Voltando ao assunto da trilha…

 

A subida ao PP é uma trilha árdua, selvagem, linda e recompensadora. Ela começa no “Morro do Aquecimento”, saindo da Fazenda em uma subida por dentro de um bosque que te leva até um selado de vegetação rasteira onde eu flagrei um lagarto tomando sol em cima de uma pedra. Mais a frente a trilha entra em uma floresta úmida entre os morros do Itapiroca e Caratuva. Ali a coisa começa a ficar mais difícil e divertida. As enormes raízes das árvores empilhadas por cima de pedras te obrigam a lances de escalada intercalados com travessias em atoleiros de lama, subidas agarrado em cordas ou cipós, diversos córregos e até algumas pequenas cachoeiras no caminho.

 

Depois de algumas horas eu emergi da floresta em um descampado coberto de caratuvas e envolto por uma neblina que não me deixava enchergar a mais de 20m de distância.

 

No primeiro acampamento encontrei 2 montanhistas de Curitiba, que estavam esperando o seu grupo que ficou para tráz na floresta. Sentei para conversar com eles e o cansaço e a preguiça bateram forte. Comecei a pensar na possibilidade de acampar por ali mesmo, mas eles me disseram que se eu pretendia ver o sol nascendo no cume, eu teria que acampar na Base 2 ou na 3, por que o trecho da Base 1 até o cume é muito difícil para ser feita no escuro. Já era por volta das 4:30 e eu resolvi enfrentar o cansaço e prosseguir. Enquanto descia a crista, me dei conta de que eu era provavelmente o último a fazer aquele trecho naquele dia, pois os que foram às bases 2 e 3 já tinham ido, e quem ainda não havia ido, ia acampar na Base 1 mesmo. Isso me deixou preocupado quando dei de cara com o primeiro paredão. Uma parede relativamente grande para ser escalada com uma mochila de mais de 20kg nas costas e sozinho. Depois dessa parede eu estava realmente exausto e torcendo para chegar logo ao campo 2. Foi nesse momento que dei de cara com o verdadeiro paredão do qual tinham me falado. E ele era enorme. De onde eu estava, com a neblina eu não conseguia ver o fim. Estava com as forças esgotadas e a mochila parecia pesar uns 100kg. É nesses momentos que você pensa “o que eu estou fazendo aqui?” Voltar para a Base 1 ia ser penoso e um desperdício de tempo e energia. Mas se arriscar nesse paredão sozinho, com pouquíssima visibilidade, cansado e sem segurança nenhuma não era também convidativo. Nesse momento apareceram 2 cabecinhas lá em cima, no meio da névoa.

 

Eram 2 caras do grupo de SP, que estavam acampados na Base 2. Eles me deram mais uma notícia animadora, ao contrário do que tinham nos dito, não havia água na Base 2, e eles estavam voltando até a última cachoeira da floresta para buscar água. Mais essa. Enfim, eles se ofereceram para esperar enquanto eu subia. Pelo menos se eu despencasse no abismo, ia ter alguém assistindo. Subi, e tirando forças não sei de onde, consegui me arrastar até a Base 2. Chegando lá conheci o resto do grupo de SP, que por ironia, havia encontrado a água. O problema agora eram os 2 que haviam descido para buscar água.

 

Já estava quase anoitecendo e a névoa estava ainda mais espessa, quando resolvemos sair em busca deles. Andamos poucos metros antes de encontrar os dois voltando, com as roupas em frangalhos e pelo menos 10 litros de água nas costas.

 

 

No acampamento, os 3 grupos se reuniram para conversar na clareira enquanto preparávamos o jantar e tomávamos conhaque para esquentar. Nesse momento, quando o sol se punha e o ar resfriou, a massa de nuvens baixou, revelando os cumes acima e formando um mar de algodão abaixo da crista. Se abriu o céu mais estrelado que eu já vi. Eu esqueci o cansaço, o paredão nem parecia mais perigoso e a subida do dia seguinte era promissora.

 

Acordei as 7 e pouco da manhã e comecei a caminhada em direção ao cume com um grupo de 4 pessoas. A escalada foi divertida e puxada. Em menos de 1h e meia estávamos no cume. Apesar de alguns infelizes atos de vandalismo, o cume vale todo o esforço e mais. Perdi a noção de quanto tempo passei lá em cima. Alguém falou “isso é uma coisa que você nunca mais vai esquecer”. De fato.

 

A volta foi cansativa. Principalmente caminhar sobre a crista com o sol fritando os miolos e o cantil vazio. A entrada na floresta foi celebrada e a cachoeira parecia mais um parque aquático. Cheguei à Fazenda por volta das 18hs. Fiquei devendo uma nova visita ao Dílson para conhecer a cachoeira que disseram ser incrível.

________________________________________as outras fotos estão aqui:
http://www.flickr.com/photos/22311377@N00/

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8 Comentários leave one →
  1. gika permalink
    17/01/2007 7:45 pm

    Irmãããooo!!
    Aaahh que coisa fofa!
    Queria ter ido junto… mas mas…
    é… algum dia eu vou.
    Eu te amo meu xuxu!
    Mil Bgikas! Espero que continue a escrever sempre… adoro ler essas coisas.
    tchururu!

  2. Baby Boo permalink
    17/01/2007 10:43 pm

    É fantástico ver como essas coisas estimulam o que há de melhor em você. Te amo – e morro de orgulho.

    Sua Esposa.

  3. Vinicius Ribeiro permalink
    18/01/2007 6:07 pm

    Fala piazito, beleza aí? Legal o blog, espero que daqui pra frente ele possa continuar crescendo. E no mais, estava alucinante esse final no PP, realmente digno para a maior montanha do estado. Forte abraço e vamos caminhando!!

  4. 29/07/2007 10:11 am

    Faz tempo que quero conhecer o pp mas nao tinha coragem, mas o teu comentario me empolgou, se puder me passe o fone Dilson , ficarei grato e ate mais obrigadoooooo

  5. Max Nelson Podleskis permalink
    20/08/2007 12:05 pm

    Tenho 73 anos e em + ou – em 1950 subi com o Stamm e o Gavião mais o Vitamina o pico Paraná, muito dificil de alcançar na epoca
    Foi muito exitante na época, uma beleza
    Cientista Louco (Max).

  6. joelcio permalink
    15/03/2009 10:21 am

    Olá amigo! Gostei da sua matéria! Parabéns! Porém, preciso te informar do novo preço que o Dilson está cobrando na fazenda. Ele não cobra mais por carro, mas sim por pessoa. Ontem tive que pagar R$ 15,00. No carro estávamos em quatro pessoas, então foi R$ 60,00 o total. Não concordo com esse preço, pois achei muito alto. Um abraço.

    • 30/06/2010 12:21 am

      Algumas corrreções ao comentário do Joelcio:

      1 – O preço de R$15,00/pessoa é para quem entra no horário noturno, que é das 20:00 até às 07 horas da manhã. Não foi o teu caso, pois vocês fizeram o cadastro na fazenda às 17:30 horas e, portanto, pagaram R$10,00/pesssoa.

      2- Você tem todo direito de achar R$10,00 caro. Mas teu raciocínio está errado quando faz a análise de caro ou barato, quando analisa o valor total pago. Analise o preço por pessoa e não o total pago (a não ser que você tenha desembolsado todo o dinheiro) .

      Se formos pensar do teu jeito, então qualquer viagem de ônibus deve ser considerada cara, pois dentro do ônibus cabem 50 pessoas. Assim 50 x R$ (qualquer preço), dará um preço alto.

      Metrô deve ser considerada exorbitante, pois cabem mais de 300 pessoas…

      Se você acha R$ 10,00/pessoa realmente caro, convido-o para passar um mês conosco e terá uma idéia dos custos da fazenda. Custos estes que se refletem no preço da entrada.

      Quaisquer dúvidas estamos sempre a disposição para esclarecimentos, tanto pessoalmente quanto pelo telefone (41) 9906-5574.

      Abraços.

  7. Max Nelson Podleskis permalink
    26/02/2010 4:11 pm

    Subir uma montanha. Ver a beleza por cima não é facil mas gratificante. Alia a corragem e percistência . O mundo é redondo.
    Max.

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