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Rolêzinho de fim-de-ano

30/12/2007

A gente é pobre, mas se diverte.
Na viagem de fim-de-ano, para ir passar as festas com  a minha família carioca, passamos por Trindade, onde chegamos com chuva, nos hospedamos na pousada ecológica Bicho-preguica, que tem aquecimento solar para a água do banho (mas a dona me informou que na região chuvosa do litoral sul do RJ não funciona) e pegamos, com sol, a linda trilha que leva até a maravilhosa piscina natural do caxadaço.

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a minha macaquinha na trilha para o caxadaço

De lá seguimos até Paraty, onde nos hospedamos em um casarão do século XVIII e  comemos lasanha vegetariana de palmito no lindo Café, um jardim tropical no meio do centro histórico.

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Seguimos viagem para o Rio. mais tarde fomos para Cabo Frio com o seu mar caribenho e nem precisamos pagar hospedagem.

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Agora estamos de volta no Rio, mas a viagem ainda não acabou…

Incêndio no Caratuva

30/12/2007

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foto: Danilo Ramos
No final do último inverno, presenciei uma das visões mais tristes de que me lembro. Havia pouco mais de um mês que eu tinha escalado a bela montanha do Caratuva, na serra do Ibitiraquire e estava voltando de viagem, quando resolvi dar uma passada por lá para tomar um banho de cachoeira, aos pés da serra. quando me aproximei, vi a trilha de fogo que subia pela face oeste da montanha, as viaturas dos bombeiros e da polícia ambiental quase me jogaram pra fora da estradinha de terra, apressadas no caminho para a fazenda e, chegando lá, encontrei o meu amigo Dilson inconsolável com a devastação de 2 das montanhas do complexo e com a ameaça às outras, inclusive ao majestoso Pico Paraná. Até hoje não se sabe o que causou o incêndio. Muitos montanhistas culparam os “farofeiros” de fim-de-semana, que visitam a região e não tem um pingo de respeito, jogando sempre lixo na natureza, fazendo as necessidades nos meio da trilha e, infelizmente, fazendo fogueiras. Além disso, o fogo podia ter sido causado por um balão de festa junina fora de época (outra estupidez), ou até ter causas naturais. Mas ficou óbvia a ineficiência das forças do estado que apesar dos esforços individuais dos bombeiros e da Força Verde, estavam mal equipados, mal abastecidos e em número insuficiente. Enquanto os incêndios varriam várias áreas no estado do Paraná, o presidente Lula mandou um helicóptero com helibalde para combater um incêndio no Chile. Não que os nossos incêndios sejam mais importantes que os que afligem as florestas do Chile, mas um helibalde teria feito toda a diferença para aquela montanha que agonizava.

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foto: Danilo Ramos

Voltei para casa com um nó na garganta e um sentimento de impotência, me lembrando dos belos momentos que passei no cume daquela montanha, das flores na beira da trilha, dos pássaros voando sobre a barraca no amanhecer. E agora me parecia que eu não podia fazer nada a não ser ver o Caratuva morrer. No dia seguinte, passei pra pegar o Dino e fomos até a fazenda. Chegando lá, descobri que já haviam passado por lá, mais de 200 voluntários nos mais de 7 dias que durou o incêndio. Subimos a pé com um dos comandos dos bombeiros, passamos pelo morro do Getúlio, devastado pelo fogo e lá pegamos uma carona de helicóptero até o cume do Caratuva.
Quem nunca esteve em um incêndio florestal não têm idéia do inferno que é. As árvores velhas e gigantescas, despencam sobre a trilha, debaixo dos pés surgem labaredas que brotam da terra e a terra e as pedras deslizam montanha abaixo sem asraízes para as segurarem.

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foto: Danilo Ramos

De toda tragédia, se tira uma lição. Depois do incêndio foi criada a primeira Brigada Voluntária de Combate a Incêndios Florestais do Paraná, da qual eu tenho orgulho de fazer parte. Espero que nunca precisemos entrar em ação, mas estaremos preparados quando formos solicitados. As fotos desse post foram tiradas pelo Dino no dia que ele me acompanhou como voluntário. Fotógrafo de verdade não fica só tirando fotos, ele botou a mão na massa, e na enxada, para ajudar a combater o fogo.

Ps. Essa semana, vi em um notíciário que em um dos países do sul da Ásia afetados pelo Tsunami, em memória  ao primeiro ano da tragédia, foram lançados ao ar centenas de balões, em homenagem às vítimas. Espero que daqui a um ano, não tenhamos que homenagear as vítimas desses balões. A lição aqui parece ser: Nunca subestime a estupidez humana.

Jardinagem Libertária

30/12/2007

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http://jardinagemlibertaria.wordpress.com

O IMPÉRIO DO CONSUMO

09/11/2007

consumismo

Eduardo Galeano

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera.

O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales.
Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações». Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar- se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.
Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.
O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham, mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.

Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.
Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Planeta Vivo produtos ecológicos

20/09/2007

Ando totalmente ausente aqui.
O motivo é que estou envolvido em um novo projeto, a Planeta Vivo produtos ecológicos.
Ainda estamos montando o site, mas por enquanto vamos de blog mesmo:
http://planetavivo.wordpress.com/

1º Curso de Design em Permacultura do Paraná

17/07/2007

Na última semana de junho passado, foi realizado o Curso de Design em Permacultura (PDC) em Campo Magro, na chácara Bio-alternativa. Esse foi o primeiro PDC
realizado em terras paranaenses e espero que seja só o primeiro passo de muitas iniciativas permaculturais. Valeu a todos os amigos que fizemos por lá e ao grande mestre Jorge.

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De volta aos nossos sentidos: como nos libertarmos da armadilha do medo?

05/07/2007

reação

 

Copirateado do erva-daninha:
http://ervadaninha.sarava.org/zine.html

Por Derrick Jensen

Estou segurando um recorte de jornal de 1996. As bordas estão gastas, e o papel amarelado. A manchete diz: “Mãe urso ataca trens.” Os trens mataram seus dois filhotes, então a mãe urso começou atacar trem após trem.

Comecei a carregar esse recorte em minha carteira, depois preguei em cima de minha mesa, pois me faz lembrar do que significa ser corajoso, o que significa estar vivo.

Costumava pensar que o mundo estava sendo destruído pela ganância, pelo ódio e pela insanidade dos que estão no poder. Claro que ainda penso isso – assim como qualquer pessoa que presta atenção nos fatos – mas eu vejo cada vez mais como nosso temor nos faz colidirmos com essa destruição.

Não, não estou usando a mesma ladainha de que, já que uso papel higiênico sou tão culpado pelo desmatamento de florestas como o presidente da Weyerhaeuser (empresa multinacional produtora de papel e celulose). Não estou dizendo que precisamos ter compaixão por aqueles que estão matando o planeta, que precisamos tirar o ódio dos nossos corações antes que possamos impedir aqueles que estão destruindo nossos lares. Não estou perpetuando o pensamento mágico que diz que todos nós somos igualmente responsáveis pela destruição do planeta, e se eu pessoalmente e um monte de outros “ambientalistas” formos coletivamente “puros” o suficiente, “bons” o suficiente, e “amáveis” o suficiente, que as coisas realmente vão dar certo no final.

De modo algum. Pois elas não vão.

Não acho que a mãe urso se preocupou com a “pureza” de seu coração. Ela simplesmente seguiu seu coração para agir contra aqueles que mataram os que ela amava.

A minha culpa pelo desmatamento é muito pior do que meu mero uso de papel higiênico. Minha culpa é que eu não impeço fisicamente os desmatamentos, a minha culpa é que eu não defendo meu lar e os lares daqueles (humanos e não-humanos) que eu amo com a ferocidade e o amor dessa mãe urso.

Nós sofremos de uma crença errônea de que o amor implica o pacifismo. Não sei se a mãe urso concordaria com isso, nem mesmo as outras mães que eu conheço. Sempre sou atacado por mães éguas, vacas, ratas, galinhas, gansos, águias, falcões, e beija-flores que achavam que eu estava ameaçando seus filhos. Já conheci várias mães humanas que matariam qualquer um que fosse machucar suas crianças. Se uma mãe-rato está disposta a arriscar a vida dela atacando alguém oitocentas vezes maior do que ela, o que isso diz sobre os nossos corações? (A propósito, a rata ganhou.)

Eu digo que amo o salmão que nada no córrego perto de minha casa, mas os salmões estão entrando em extinção, e o que eu faço para ajudá-los? Escrevo sobre eles, canto canções para eles, paro e os admiro com meus olhos cheios d’água, enquanto eles botam seus ovos em córregos lamacentos. Mas o que eu FAÇO?

O problema não é complexo. Se eu realmente me importo com os salmões, preciso remover as barragens, preciso impedir o florestamento industrial e a pesca comercial, e preciso impedir o aquecimento global. Essas são na verdade simples tarefas técnicas. Mas eu não as faço.

Por que não?

Pensei em todos os tipos de motivos pseudo-intelectuais, pseudo-espirituais ou pseudo-morais, mas quando sou honesto comigo mesmo, o verdadeiro motivo por trás de todos os outros é que eu tenho medo. Tenho medo de que se eu agir efetivamente a polícia irá me matar ou me colocarão na prisão para sempre. Tenho medo de que se eu agir efetivamente serei marginalizado nessa sociedade. Tenho medo de que se eu agir efetivamente, as pessoas não vão gostar de mim. Elas irão me julgar.

Aqui vão algumas perguntas que tenho pensado ultimamente. Se os nazistas ou outros fascistas tomassem conta de toda a América do Norte, o que todos nós faríamos? Considere a definição de Mussolini sobre fascismo: “O fascismo deveria ser chamado apropriadamente de Corporativismo pois ele é uma fusão do Estado com o poder corporativo.” E se esse país ocupado se chamasse de democracia, mas quase todos considerassem as eleições serem falsas, com cidadãos sendo permitidos a elegerem entre diferentes facções do mesmo partido Fascista (ou, segundo Mussolini, Corporativo)? E se o protesto e outras manifestações não violentas fossem enfrentadas pelas tropas de choque e a polícia secreta? Nós revidaríamos? Se um movimento de resistência já existisse, nós nos juntaríamos a ele?

E o que faríamos se os que estão no poder instituíssem leis que os permitisse colocar um terço de todos os homens judeus entre dezoito a trinta e cinco anos em campos de concentração? Substitua judeus por afro-americanos e faça a mesma pergunta.

Nós resistiríamos se os fascistas irradiassem o campo, envenenassem o fornecimento de alimento, desmatassem o continente, ou deixassem os rios sujos demais para beber ou nadar em suas águas? E se os fascistas não envenenassem só a terra, mas os corpos daqueles que amamos com dioxina – uma das substâncias mais tóxicas conhecidas – e outras substâncias cancerígenas? Em minhas palestras pergunto às pessoas quantas delas amaram pessoas que foram mortas por câncer. Cerca de oitenta por cento levantam as mãos. Agora, resistiríamos se os que estão no poder envenenassem não somente os corpos daqueles que amamos, mas nossos próprios corpos?

Se não vamos revidar quando aqueles que amamos estão morrendo e nossos próprios corpos estão sendo envenenados, quando vamos tomar alguma atitude? Cada um de nós deve encontrar o próprio limiar: o ponto do qual nos libertamos dos nossos medos e agimos em prol daqueles que amamos.

Por que estamos tão aterrorizados? Do que temos medo? Nenhuma dessas perguntas é retórica. Elas são, até então, algumas das perguntas mais importantes que devemos perguntar a nós mesmos.

No nível mais básico, o medo é a crença de que temos algo a perder. Até um ponto, claro, nós temos muito a perder. Todos sabemos o que os que estão no poder podem fazer àqueles que os ameaçam ou as suas posses. Jeffrey Leuers queimou três picapes em um ato de resistência simbólica, e foi sentenciado a mais de vinte e dois anos de prisão, uma pena muito maior do que a dada a estupradores, àqueles que espancaram suas esposas até a morte, aos presidentes das companhias químicas das quais suas decisões liberam no mundo toxinas que fazem tantos de nós adquirirmos câncer. Se nós fôssemos ameaçar o dito direito dos que estão em poder de converter o mundo em produtos consumíveis para serem vendidos, eles tentariam nos impedir a qualquer custo.

Mas há mais medos também. Sabemos que nós – aqueles de nós que são os beneficiários físicos primordiais da exploração – perderíamos acesso a alguns produtos. O que dizer sobre nós que estamos dispostos a aceitar a destruição do planeta em troca de produtos como o café, chocolate, carros?

Todos nós estamos diante de escolhas. Em larga escala, nós podemos ter automóveis ou podemos ter calotas polares e ursos polares. Nós podemos ter barragens e produtos de papel e madeira, ou podemos ter salmões. Podemos ter caixas de papelão ou podemos ter florestas. Podemos ter eletricidade e um mundo devastado, ou simplesmente não podemos ter nada disso: até mesmo a energia solar requer uma infra-estrutura industrial. Podemos ter frutas importadas, vegetais, e café, ou podemos ter ao menos comunidades intactas humanas e não-humanas na América Latina.

Isso significa que deveríamos nos desesperar? Talvez. O desespero certamente é uma resposta apropriada a uma situação desesperante. Mas mais do que isso, nós deveríamos simplesmente reconhecer que essas escolhas na verdade não são escolhas: por mais de noventa por cento de nossa existência, os humanos viveram alegremente sem destruir suas comunidades ou o planeta. Essas escolhas são o resultado de um modo de vida aberrante e, sinceramente, bizarro.

Em um nível mais pessoal, podemos deixar o barco correr em uma cultura que não nos é muito útil – não nos faz realmente felizes; não nos deixa realmente confortáveis; não nos deixa realmente seguros; mas apenas oferece ilusões de felicidade, conforto e segurança – ou podemos começar o difícil trabalho de procurar em nossos próprios corações, para perguntarmos quem e o que amamos, quem e o que nos faz sentirmos fortes o suficiente para mudarmos nossas vidas, para lutarmos, para vivermos. E nossa própria felicidade? Há muito tenho o hábito de perguntar as pessoas se elas gostam de seus empregos: cerca de 90 por cento dizem não. O que significa quando a vasta maioria das pessoas passa a maior parte de suas horas fazendo coisas que elas preferem não fazer? E a sua saúde? E a saúde de seus filhos? E a felicidade deles (e eu não estou falando sobre os diversos brinquedos que eles possuem, mas a real qualidade de suas vidas)? E a saúde e felicidade do lugar onde você vive? E um planeta que não está sendo destruído? O que é mais importante para você?

Não podemos ter tudo. A crença de que podemos é uma das coisas que tem nos levado a essa terrível condição. Se insanidade pudesse ser definida como a perda da conexão com a realidade física, para acreditarmos que podemos ter tudo – para acreditarmos que podemos simultaneamente desmantelar um mundo e viver no mesmo; para crermos que podemos perpetuar o uso de energia mais do que o sol fornece; parar crermos que podemos retirar do mundo mais do que ele nos dá; para crermos que um mundo finito suporta um crescimento infinito, um crescimento econômico muito menos infinito, que converte vários seres vivos em objetos mortos (a produção industrial, no centro, é a conversão da vida – árvores ou montanhas, por exemplo – em morte – papéis e latas de alumínio) – é insanidade.

No fundo, todos nós sabemos disso. E mesmo assim nos não podemos falar por nós mesmos, pois temos medo. Temos medo de perder o que temos. E assim, não fazemos nada.

Mas temos medo de algo mais. Temos medo de não pertencermos: mesmo com o fato de todo o sistema social ser insano, nós ainda temos medo de sermos excluídos dele. Ontem mesmo levei minha mãe ao Wal-Mart para ela trocar um novo telefone que não funcionava. Agora, antes que você me chame de hipócrita, saiba que na minha cidade o Wal-Mart já fez seu estrago, e a Radio Shack (NOTA DE TRADUÇÃO: loja de departamentos de eletrônicos) era sua única outra escolha. Havia uma grande fila na seção de trocas, e como estava um belo dia, esperei do lado de fora. Em um banco havia uma mulher sentada comendo um sanduíche, e em outro, um homem fumando cigarro. Eu sempre prefiro a companhia de arbustos aos humanos mesmo, então sentei na calçada perto de umas piracantas (arbusto conhecido como espinho de fogo) “aprisionadas”. Agora aí que está a questão: eu podia notar que as pessoas que estavam de passagem, especialmente os funcionários do Wal-Mart, estavam incomodados por eu estar sentado em um lugar não-autorizado. E sei que o problema era com o lugar que eu estava sentado: não tinha um cabelo comprido não-autorizado, nem um cheiro não-autorizado, nem roupas sujas não-autorizadas, nem mesmo estava percebendo aquilo de uma maneira não-autorizada. Mas eu sentia que as pessoas naquele lugar, naquele momento, queriam que eu saísse de lá, e consequentemente, eu podia sentir eu mesmo querendo sair daquele lugar, para entrar na linha. Aquele sentimento era quase insuportável.

As mesmas pressões psicológicas estariam presentes quando fui a uma banca de revistas, escolhendo entre Soldier of Fortune, Penthouse ou Car and Driver. A outro nível, essa mesma pressão poderia me fazer parar na frente de uma árvore centenária, com uma moto-serra na mão apontando para ela, ou, em outro caso, apontar uma pistola para um judeu russo, ajoelhado ao lado de uma cova cheia de corpos contorcidos. Nunca devemos subestimar o poder da pressão social interna para nos conformarmos.

Uma das coisas mais inteligentes que os nazistas fizeram foi agregar a razão, a esperança e o medo a curto-prazo. Em cada passo da história, os judeus não tinham interesse em resistir: muitos judeus tinham a esperança – e essa esperança era cultivada pelos nazistas – que se eles fossem obedientes, e seguissem as regras daqueles no poder, suas vidas não iriam piorar, e eles não seriam assassinados. Eles se deparavam com essas questões: ter uma carteira de identidade, fazer parte de um gueto, entrar no caminhão de transporte de judeus, ou resistirem e provavelmente serem assassinados. O que acontece quando nos fazemos a mesma pergunta? Iríamos entrar nos chuveiros, ou resistir e nos matarem?

Os judeus que participaram da insurreição do gueto de Varsóvia – incluindo aqueles que se arriscaram no que achavam ser missões suicidas – tiveram uma maior taxa de sobrevivência do que aqueles que obedeceram as regras dos nazistas. Nunca se esqueça disso.

Outra coisa importante: um chefe de segurança de alto cargo do regime do Apartheid na África do Sul, uma vez disse em uma entrevista o que ele mais temia do grupo rebelde Congresso Nacional Africano (ANC). Ele não tinha tanto medo das ações violentas do ANC; o que ele mais temia era que o ANC poderia convencer a maioria oprimida dos africanos a desobedecerem a “lei e ordem” imposta pelo regime, ou seja, pensar e sentir por si próprios. Até mesmo as mais altas e bem treinadas “forças de segurança” do mundo não seriam, segundo ele, capazes de deter aquela ameaça. Quando começamos a perceber que as leis e os decretos daqueles no poder não carregam nenhuma herança moral ou peso ético, nós nos tornamos os seres humanos livres que nascemos para ser, capazes de dizer sim e capazes de dizer não.

Lembre-se disso também.

No século XVI, Éttiene de la Boétie nos faz lembrar de quando os poderosos são insaciáveis, a submissão é fatal – que quanto mais nos submetemos à dita “lei e ordem” daqueles no poder, mais eles exigirão de nós. Ele escreveu que “quanto mais a tirania rouba, mais eles anseiam por mais, mais eles arruínam e destroem; quanto mais você se cede à eles e os obedece, mais eles se tornam fortes e poderosos, prontos para nos aniquilar e destruir. Mas se nada é cedido à eles, se, sem qualquer violência eles simplesmente são desobedecidos, tornam-se nus e assim como quando a raiz não recebe nutrientes, toda a árvore definha e morre.”

Claro, temos medo. Há muito a temer. Mas com um mundo sendo destruído diante dos meus olhos, essa crença de que temos algo a perder torna-se uma ilusão. E o melhor guia que conheço para me ajudar a distanciar dessas ilusões é o meu coração. Meu coração nunca me desapontou.

Penso frequentemente naquela mãe urso, assim como penso também nas mães éguas, vacas, ratas, galinhas, gansos, águias, falcões e beija-flores que defendem aqueles que amam. Penso na coragem das abelhas que vieram para cima de mim, que entravam no meio do meu cabelo para encontrar um meio de me picar, que fizeram com que eu me distanciasse de suas colméias, ao custo de suas vidas. Penso na coragem do salmão, que volta ano após ano, que continua apesar de tudo o que estamos fazendo com ele, ou melhor, tudo que permitimos que seja feito com eles.

E eu percebo que antes que eu possa salvá-los, tenho que confiar neles para que eles me salvem, para que me ensinem e me façam lembrar o que é amar, o que é enfrentar meus medos, o que é agir em defesa daquilo e daqueles que amo.